O Novo Médico e o Novo Paciente

Mariano B. Marques

       Há pouco mais de uma década, dizíamos que  as mudanças no mundo aconteciam com extraordinária rapidez. Hoje, a realidade é outra: ele se transforma a cada instante. Ou seja, a cada minuto, temos um novo mundo, uma realidade nova, independente de  percebermos ou não.

Nesse contexto,  o nosso desafio, em qualquer área profissional,  é nos adequar a esse processo contínuo e intenso, o qual impõe a ausência de absolutos e a inovação de equipamentos, processos e técnicas, além da atualização constante da informação e do conhecimento.

Um exemplo eloqüente do que acontece nos tempos em que vivemos é a relação médico-paciente. Até há pouco mais de uma década, no atendimento no consultório, o médico ouvia o paciente, o examinava, pedia exames e lhe prescrevia a medicação. O paciente não questionava. Era uma relação de confiança cega, justificada pela desinformação da parte passiva.  Mas a Internet mudou tudo. Há casos nos quais o paciente chega ao consultório com informações mais atualizadas sobre a sua doença do que aquelas em poder do seu médico.

Hoje, é comum o médico explicar o porquê da medicação e de sua dosagem,  quais os possíveis efeitos colaterais, as razões e as chances de sucesso ou insucesso de determinados procedimentos, e muito mais. Além disso, está aberto ao diálogo e aos  questionamentos do seu cliente, e considera isso muito natural. E  pode até mesmo reconsiderar uma opção de tratamento a qual o cliente recusa por razões fundamentadas.

Assim, na minha opinião, o termo “paciente” está totalmente ultrapassado. As pessoas querem ser vistas e tratadas como gente, e não apenas como um corpo doente. E gente, mesmo leiga, tem opinião. Também, emoções como medo, insegurança e muitas dúvidas. E quer expressar isso.

Sabemos que a doença, quando séria, fragiliza qualquer um de nós, tanto na dimensão física quanto na emocional e psicológica. E sentir-se tratado como pessoa é muito confortante e pode ajudar muito na recuperação. Isso ficou cristalino para mim durante quatro anos de tratamento clínico de insuficiência renal crônica, hospitalização,  cirurgia de transplante renal e  período pós-operatório.

Também, nesta nova realidade, o cliente bem informado já não se conforma em apenas ouvir o seu médico passivamente e seguir suas orientações. Ele pode querer ouvir outros profissionais sobre o seu caso, pesquisar na internet e na literatura especializada, com o  propósito  de colaborar de maneira efetiva com o seu médico no seu tratamento. Isso o deixa mais seguro e mais participativo.

Neste novo mundo, o médico continuará o detentor da habilidade e do conhecimento especializados. Mas o seu cliente será muito bem informado e questionador. Para o médico ainda pouco consciente dessa nova realidade,  essa mudança radical de postura do seu cliente pode ser incômoda e mal interpretada. No entanto, ao invés de zona de conflito, deve ser de cooperação.

Hoje, a ciência médica precisa olhar para o ser humano na sua dimensão holística, e não apenas física. O estudo de psicologia e relações humanas deve ser obrigatório nos cursos de medicina. E quando  houver sido plenamente preenchido   o vazio relacional entre o médico e seu cliente pela interação e colaboração criativas, ambos caminharão de mãos dadas celebrando não apenas mais uma vitória da medicina, mas, também, das relações humanas. E todos nós sairemos ganhando.

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O autor é transplantado renal desde 2007. Graduado em liderança pelo Haggai Institute for Advanced Leadership, Cingapura, e também em História e Letras Inglês. Palestrante em liderança.

Licença Creative Commons
O Novo Médico e o Novo Paciente de Mariano Barroso Marques é licenciado sob uma Licença Creative Commons Atribuição-Uso não-comercial-Vedada a criação de obras derivadas 3.0 Brasil.
Publicado em  www.marianobmarques.wordpress.com.

3 respostas em “O Novo Médico e o Novo Paciente

  1. Muito bom texto!
    Boa reflexão, do ponto de vista de um paciente esclarecido, com acesso a rede.
    A globalização da informação, para quem tem acesso a ela, e as redes sociais tem mudado todas as relações. E a relação médico/paciente não ficou de fora. No entanto, a relação que prioriza o TODO, levando em conta as emoções/sentimentos, não acompanha o caminhar acelerado da tecnologia. E é bom que assim seja, pois a primeira é complexa e demanda tempo. Neste caso, tempo para consulta, para a escuta, para o vínculo. Essa quebra de paradigma também exige tempo. Tempo para o MÉDICO se acostumar que o SABER não mais pertence só a ele. Tempo para o paciente assumir a RESPONSABILIDADE que lhe cabe no sucesso do tratamento. Conciliar a velocidade da tecnologia e a “correria” do sistema vigente, na era do conhecimento, com a necessidade de mais tempo para um melhor relacionamento é o grande desafio para médicos e seus clientes. Mas… chegaremos lá, pois um novo paradigma já bate a nossa porta e deverá servir à todos, com ou sem acesso a rede de informações.

    • Obrigado, Dra. Penha, pelo excelente e refletido comentário.
      Você tem toda razão. A tecnologia, com seu avanço incontido, nos sugere a “humanização” da máquina e a “maquinização” do ser humano. E essa tentação tende a se transferir nos relacionamentos.

      Por outro lado, essa mesma tecnologia encurta a distância entre o profissional e o leigo. E proporciona maior socialização do saber, inclusive o científico. E amplia, de maneira gigantesca, o leque do acesso à informação e o diálogo entre os saberes. E isso vai possibilitando, embora de maneira ainda lenta, caminhar-se rumo a essa visão holística do homem, na qual está inclusa, entre outras, a dimensão espiritual.

      Realmente, quando a medicina preparar seus profissionais para ver e tratar não epenas um corpo doente, mas um ser extremamente complexo, que é cada um de nós, com certeza dará um passo revolucionário no tratamento das doenças humanas. E isso porque estará aberta para considerar causas não físicas das doenças que acometem o nosso corpo.

      Amei sua participação. Foi valiosíssima, especialmente por vir de uma gabaritada profissional da saúde atenta para as tendências do que se desenha à nossa frente.

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