A Velha que Virava Porca

Mariano B.Marques

Uma história de quando eu era menino, em Canafístula¹.

Havia, no lugarejo, uma senhora chamada Marta do Mané Cachimbo. Era chamada assim por causa do seu marido,  aliás, do seu amancebado², o Mané Cachimbo. Esse, por sua vez, era assim chamado porque fumava muito cachimbo.

O povo dizia que a velha Marta não se despia na frente de ninguém. Quando ia lavar roupa no riacho com as outras mulheres, banhava sempre vestida. A razão disso é porque, contavam, uma vez, o Raimundo Gordo ia chegando em casa, de noite, e tinha uma grande porca lá dentro.  A porca partiu para cima dele querendo estraçalhá-lo. O animal era de uma ferocidade impressionante. Então, o Gordo deu um tiro de espingarda nela. Ferida na costela,  desapareceu noite adentro.

No dia seguinte, dizem, a velha Marta amanheceu doente, ficou trancada no quarto por vários dias, sem se banhar,  e não queria ver ninguém.

O boato era que a velha Marta virava porca na noite de lua cheia. E, para que ninguém visse o ferimento do tiro delator, ela só tirava a roupa quando estava sozinha.

Morreu Mané Cachimbo e também a velha Marta há mais de quarenta anos. Mas essa história ainda hoje se ouve por ali. E tem gente que acredita.

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¹ pequeno vilarejo localizado no sul do Maranhão, no Nordeste brasileiro, onde vivi boa parte de minha infância.

²termo muito utilizado no sertão maranhense na época na qual o texto se situa; significa pessoa com quem se vive maritalmente sem ser casado.

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A Velha que Virava Porca de Mariano Barroso Marques é licenciado sob uma Licença Creative Commons Atribuição-Uso não-comercial-Vedada a criação de obras derivadas 3.0 Brasil.
Publicado em  www.marianobmarques.wordpress.com.