As Formigas e o Osso

Mariano B. Marques

 Dizem que a formiga é, proporcionalmente, o animal mais forte do mundo, pois chega a carregar até cerca de trinta vezes o seu peso. Mas, é claro, ninguém parece acreditar muito na força extraordinária desse pequenino animal. Afinal de contas, basta  ao ser humano um peteleco com a ponta do dedo para esmagá-lo. Mas eu vi as formigas numa  operação fantástica, e vou  lhe contar em detalhes:

É cedo da noite. Estou sentado à mesa da nossa cozinha, conversando com minha esposa e filho de 14 anos. Acidentalmente, olho para o lado. Os meus olhos se fixam na parede, a quase dois metros do chão. A cena é extraordinária! Um comprido osso de galinha de cerca  de dois centímetros de comprimento por alguns milímetros de diâmetro vem deslizando pela parede rumo ao chão, arrastado e equilibrado por algumas dezenas de minúsculos seres negros aos quais nós, os humanos, batizamos de formigas.

Observo mais de perto. Penso que  já haviam percorrido um longo caminho conduzindo a sua preciosa carga. E continuam parede abaixo num autêntico cortejo de força, coragem e determinação. À frente, um pequeno e ágil pelotão de batedoras marca bem a trilha para a passagem das carregadoras. Atrás, um grupo de segurança, para garantir a tranqüilidade da operação. Em pouco mais de um minuto, nossas corajosas amigas atingem o solo com sua enorme tora de osso. Aqui, surge um problema: é preciso fazer uma curva, a da parede, num ângulo de noventa graus. A manobra é difícil. Não importa –  dificuldade é apenas um encorajador desafio às minúsculas gigantes. Não há medo, nem hesitação. Espicham-se ao máximo para girarem a ponta traseira do osso e, em seguida, contornarem o canto da parede. Logo, a sua pesada carga prossegue normalmente a sua rota, com um rumo certo:  o formigueiro.

Sem arrefecer a marcha, nem o entusiasmo, logo  chegam a um pequeno buraco ao pé da outra parede. Aqui, lamentavelmente, um incidente  de cálculo que o instinto não poderia evitar: o diâmetro do osso é maior que o diâmetro do buraco. Não se observa nenhuma reunião para discutir o sério problema. Uma solução simples e rápida brilha de uma só vez em cada cabecinha negra, que é adotada por todas, sem discussões, nem falatórios inúteis: “ABANDONAR A OPERAÇÃO!”.

Nada de lamentações nem queixumes. Todas abandonam o osso e marcham em frente até ao próximo desafio. Persistência é o seu lema; coragem e determinação, a sua maior força. Para elas, frustração pelo insucesso temporário é apenas uma oportunidade para novos empreendimentos. Não conseguiram concretizar o seu objetivo. Mas uma carga essas corajosas guerreiras não carregam ao longo da vida: o sentimento de culpa por não haver tentado.

Será que a gente tem alguma coisa a aprender com as formigas?

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As Formigas e o Osso de Mariano Barroso Marques é licenciado sob uma Licença Creative Commons Atribuição-Uso não-comercial-Vedada a criação de obras derivadas 3.0 Brasil.
Publicado em  www.marianobmarques.wordpress.com.