Sua Excelência, o Burro

Mariano  B. Marques

Quem lhe esculpiu estátua

e a ergueu em praça pública?

Quem lhe escreveu versos

e nele se inspirou em suas canções?

Quem batizou rua, cidade ou vila

em sua honra?

Quem, n’algum momento de glória,

lembrou-se de render-lhe homenagem,

por pequena que fosse?

Ninguém! Ninguém se lembrou!

Mas foi ele que puxou, nos  lombos fortes,

a carroça, a sacaria, a lenha, a rapadura

dia e noite, noite e dia, anos a fio,

pelos caminhos, cidades e vilas do Brasil.

E levava,  em cada jornada,

um pouco da esperança, da grandeza nacional.

Foi ele que levou os noivos para a igreja,

o cidadão para lugares distantes,

pelos sertões do meu País,

antes do carro moderno.

Foi ele que transportou a fartura do pobre

à mesa do rico,

a migalha do rico à mesa do pobre,

a escassez do pobre e a abundância do rico

aos centros de comércio e portos brasileiros.

Como prêmio, teve a comida, a água;

como motivação, o chicote;

como troféu, o esquecimento na história;

como monumento, a discriminação social;

como glória, a sobrevivência da raça,

a força passiva de continuar sendo,

no mérito aqui reconhecido,

o que ele sempre foi, com toda honra,

sua excelência, o burro!

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Sua Excelência, o Burro de Mariano Barroso Marques é licenciado sob uma Licença Creative Commons Atribuição-Uso não-comercial-Vedada a criação de obras derivadas 3.0 Brasil.
Publicado em  www.marianobmarques.wordpress.com.

8 respostas em “Sua Excelência, o Burro

  1. Me fez recordar do meu tempo de menino lá em Itapaci – GO, quando eu e meu irmão Cláudio pegávamos uma carona, na carroça do vizinho puxada por um burrinho muito esperto.

  2. Grande mariano gostei bastante, fez-me lembrar de meus tempos de infancia , quando em algumas vezes andàvamos neste grande companheiro de viagem

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