UMA COROA DE FLORES PARA ENI

Mariano B.Marques

“E você, vai contribuir? Com quanto?” –  perguntava a secretária do chefe, segurando, à frente de cada mesa, uma lista e uma caneta ansiosa por registrar o próximo nome e a próxima quantia.

Mas, por que logo aquela colega com esse gesto aparentemente tão nobre de alma bondosa? Falava tão mal da Eni…eu testemunhei inúmeras vezes! Parece que não se cansava de ridicularizá-la,  de humilhá-la. E os colegas que a ajudavam nisso…por que todo mundo agora metendo a mão no bolso para demonstrar um afeto que nunca tiveram pela colega enquanto  viva? Puxa, quanta hipocrisia!

 A Eni era um tipo muito estranho. Estava sempre muito deprimida e “alta” de drogas. Dificilmente falava coisa com coisa. Era bonita, culta e inteligente, de pele clara e cabelos aloirados. Tinha cerca de 45 anos de idade e um filho de cinco,  com retardamento mental,  cuidado pela empregada. Nos fins de semana, a Eni  ficava sozinha em casa com o menino. E quando não estava drogada, estava bêbada. Devia ser terrível para aquela criança.

Além de colega de trabalho, era minha vizinha de prédio. Morávamos no mesmo andar.  Mas  eu já não sabia distinguir quando ela estava sóbria. Era difícil dizer. Diziam que recusava qualquer idéia de tratamento e que a família era de classe média.  Também que já tinham tentado ajudá-la várias vezes a sair daquele fundo de poço, mas ela não conseguia reagir.

Numa segunda-feira, a Eni faltou ao trabalho.  No dia seguinte, também. Aquilo me pareceu estranho. Não havia ligado, nem vizinho algum a tinha visto sair no fim-de-semana. O que teria acontecido? Alguém disse ter visto o menino na janela do apartamento, no primeiro andar, falando repetidas vezes para as outras crianças que brincavam lá em baixo:

               -A Eni tá durmino!….

 Ao que parece, a criança estava tentando avisar que havia alguma coisa errada em sua casa. Mas, quem liga para o que criança fala?…

Os vizinhos do apartamento da Eni se queixavam de que estavam sentindo um cheiro estranho, mas não sabiam de onde vinha.Uma vizinha desconfia, pega o telefone e liga.

        –  Cadê sua mãe, meu filho?

       –  Tá durmino…respondeu o garoto.

          –  Dormindo?!… Há quantos dias? Muito estranho…pensou a vizinha.

Decidem chamar o Corpo de Bombeiros. Eles atendem ao chamado, e chegam rápido. Arrombam a porta, entram  cautelosos…e lá está a Eni deitada na cama, sem vida – overdose! – e o menino em pé,  ao lado:

          -Eni, acorda!…insistia a criança.

Os vizinhos ficaram chocados, e a notícia se espalhou rapidamente. Não vi a cena, mas fico chocado  só em pensar na impotência e no desespero daquela criança. Imagino que, apesar do seu problema de retardamento mental,  percebera haver algo de errado com sua mãe. De fato, muito errado para o entendimento de um menino de cinco anos com o problema dele.

Dizem que ela já havia tentado o suicídio antes.

No trabalho, a notícia caiu como uma bomba. O choque emocional foi grande, mesmo já sendo algo que sabíamos poderia acontecer a qualquer momento.

Mas..agora, para que uma coroa de flores para ela? De que serviria? Tivemos o tempo todo para lhe dar uma rosa, uma só, que nos custaria quase nada, porém nunca o fizemos. Mas, já que rosas custam dinheiro, por que não lhe demos uma palavra de aceitação e amor enquanto estava conosco no escritório todos os dias anos a fio? E, se não tivemos amor para lhe dar uma rosa em vida, por que agora esse papo furado de   uma coroa  de flores para o seu cadáver? Era de fato para ela, ou queríamos apenas maquiar a nossa imagem e a nossa consciência coletiva?

A vida de Eni era um labirinto. Uma vez, indo no mesmo  ônibus para o trabalho, contou-me um pouco das suas desventuras: casou-se, teve um filho, o marido foi embora, teve outras aventuras amorosas…Só não me falou do que lhe era mais reservado, a respeito do que ouvi muitos comentários: o seu vício em drogas – pobre Eni…

A Eni tinha crenças religiosas estranhas. Na sua bolsa, diziam, não faltava um vidrinho de um líquido de cheiro esquisito, que ela abria quando o pessoal saía para o almoço, e ungia a sua mesa, cadeira, telefone, máquina de escrever e outros objetos do seu uso. E isso, realmente, eu a vi fazendo algumas vezes. O fato de sermos vizinhos de prédio e colegas de trabalho  gerou para mim e minha esposa duas ou três oportunidades de  compartilhar com a Eni o Evangelho de Cristo, e – graças a Deus – o fizemos. Mas a sua situação era tão crítica que parecia não conseguir entender nada. Não me lembro de tê-la vista visivelmente sóbria alguma vez.

Bem, voltemos à cena da colega fazendo a coleta no escritório.  Quando a vi  tão solícita em levantar fundos para uma coroa de flores para a Eni, o meu sentimento foi  de profundo pesar pela Eni e também de reflexão e  revolta. Eu admitiria essa iniciativa de apreço de qualquer pessoa, menos dessa colega que humilhava e ridicularizava tanto a Eni. Meu Deus, como nós humanos podemos ser tão hipócritas!..O certo é que a Eni morreu sozinha – ou quase sozinha, não fosse a criança. Pior ainda, aquele era o dia do seu aniversário.

Há tanta gente que morre perdida, só, na selva do asfalto. Na vida moderna, de mentalidade individualista, pouca gente se importa realmente com alguém. É a lei do murici: cada um cuida de si.

E mais ainda: nessa selva de prédios lindos e residências confortáveis, as pessoas preferem viver isoladas, ao que parece com medo das outras. É a espécie humana com medo de si própria e sempre procurando descobrir meios de se proteger do seu chocante desamor.

Hoje, cerca de  trinta  anos depois, ainda me emociono quando visualizo mentalmente o menino vivendo aquela cena nem um pouco teatral.

E fiquei meditando: quantas pessoas de ambos os sexos, como a Eni, convivem conosco o tempo todo e nunca lhes damos qualquer manifestação de amor? Depois, quando se vão de repente, debaixo do nosso nariz, falamos em homenagens e manifestação de carinho? Só nós humanos conseguimos ir tão longe nas asas negras da falsidade!

E o filho? Ah, sim, os familiares tomaram  conta. Nunca mais o vi.    Deus o abençoe. Mas esse fato me ensinou uma lição preciosa: Se queremos presentear alguém com flores, o façamos para perfumar a sua vida, e, não, o seu túmulo.

Se eu tivesse uma outra chance, daria para a Eni uma flor como a da foto acima. E sei que ela amaria.

Bem, mas tem muitas Enis vivas ao nosso redor. E também são mortais.  Por que de vez em quando não perfumamos a vida de uma delas?….

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UMA COROA DE FLORES PARA ENI de Mariano Barroso Marques é licenciado sob uma Licença Creative Commons Atribuição-Uso não-comercial-Vedada a criação de obras derivadas 3.0 Brasil.
Publicado em  www.marianobmarques.wordpress.com.

21 respostas em “UMA COROA DE FLORES PARA ENI

  1. Que lindo Pr. Mariano! para que precisamos de flores sobre os nossos túmulos? se elas foram criadas para perfumar e embelezar nossas vidas. Ademais, quantas “Enis” existem por aí. Abraços.

    • É isso aí, Gontígio. Para que os mortos precisam de flores sobre seus túmulos? Mas tem muita gente ao nosso redor que vai ficar muito feliz se lhe dermos uma simples flor. Abraço.

  2. Querido pastor Mariano, texto muito emocionante e lindo!
    Que possamos realmente perfumar as vidas das pessoas e não apenas embelezarmos os seus túmulos.
    Grande abraço.

  3. Olá Irmão Mariano!! Gostei muito do seu texto. Amo esses temas que nos fazem pensar sobre a vida, sobre os seres humanos. Quero parabenizá-lo pela iniciativa ! Bjos

  4. Pr. Mariano este texto é maravilhoso, o que falta mesmo em nossas vidas é AMOR, amar mesmo o próximo, o problema é que muitas pessoas estão em crise de identidade, não consegue reconhecer a si mesmo, ou seja, como Posso amar o próximo se eu Ainda não me AMO, se todos nós refletissemos sobre esta história tão marcante, agiriamos de forma completamente diferente, pois, como diz o Senhor Jesus, todos nós somos iguais perante a ele, o difícil é colocar em prática, amar quem nos ama , quem nos faz bem é muito fácil, difícil é amar verdadeiramente quem nos quer mal, o mendigo mal vestido, pessoas simples, isso na prática requer mais amor, assim o Senhor Jesus nos ensina e nos deixou um grande exemplo, quando ele veio buscar seu povo, e os homens o esperava como um homem rico, quando na verdade veio montado em um jumento, HOMEM SIMPLES, o que aconteceu: FOI REJEITADO, assim acontece nos dias de hoje, quantas pessoas com problemas e dificuldades rejeitamos, desprezamos,sei de uma coisa CADA um tem um coração, um sentimento, pensamento e isso deve ser respeitado a qualquer preço.

    Que todas as palavras e testemunhos sirvam de exemplo e iniciativa para que possamos cada um mudar o mundo ao nosso redor.

    paz do Senhor

  5. Muito tocante…Importante para fazermos uma reflexão sobre as nossas ações, que muitas vezes estão no “piloto automático” no dia-a-dia. Parabéns pela iniciativa do Blog.
    Um forte abraço, Ana Cristina Chaves.

    • Estimada Ana, visitei o seu blog. Admiro muito o trabalhao que vc faz. Lamento pelo cancelamento da patinação artística. Quanto ao seu perfil, sei que é uma pessoa modesta no falar sobre vc, e acho isso lindo. Mas senti falta de mais informações sobre suas qualificações profissionais. Por exemplo, eu amaria dizer para todos os seguidores do seu blog que vc possui grau acadêmico de Mestre e vasta experiência na sua área de atuação educacional. E mais uma vez, obrigado por ter sido a orientadora da minha monografia de graduação no curso de Letras Inglês. Vc foi extraordinária! Por isso conseogui fazer um trabalho de qualidade em tempo recorde.

  6. Quando li o seu texto fiquei lembrando do quanto fiquei perplexa no enterro da minha sobrinha ano passado com as pessoas tão consternadas, chorosas e sentidas com a morte dela, mas essas pessoas eram as mesamas que antes, quando a menina estava viva que criticavam, desaprovavam seu amor pelos cachorros (ela tinha 5, todos resgatados da rua e do abandono) e estavam ali fazendo aquele teatro. O senhor tem razão, como o ser humano vai fundo na hipocrisia!
    Abraços,
    Giza

  7. Cá estou, meu caro, sensibilizado com a Eni e o seu veio literário. Bem vindo ao mundo dos blogueiros. Nasceu em meu coração a ideia de fazermos uma associação ou ministério dos blogueiros da ADET. Se a ideia lhe interessar, me procure pra
    gente conversar mais sobre o assunto.

    Reinaldo Braz dos Santos

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