ÁGUIA FERIDA

 Mariano B. Marques

 Enquanto uma amiga orava por uma pessoa de coração amargo que estava aconselhando teve uma visão espiritual de  um bando de águias voando livremente no céu azul e límpido. Algumas voavam tão alto que mal podiam ser vistas da terra. E todas celebravam a liberdade de serem livres.

Embaixo, na encosta da escarpada serra, uma águia jovem anda irrequieta de um lado para o outro  sobre o galho

de uma árvore seca. De vez em quando, outra  águia de porte majestoso bica repetidas vezes a jovem águia tentando fazê-la voar para a liberdade. Mas ela se recusa a fazê-lo. Então, a águia grande  bica ainda mais, insistindo e insistindo, porém sem sucesso: a jovem águia se encolhe toda, abaixando  a cabeça  contra o peito e agarrando-se cada vez mais ao velho galho seco.

O tempo passa, e a cena continua. De tanto ser bicada, a águia jovem já está toda ferida. É o resultado da luta da persistência de provocar uma reação para a liberdade contra e insistência em permanecer na comodidade estéril.

Então, alguém que observa grita:

–         Corta a árvore, porque assim ela voa!…

Mas a águia grande responde:

–         Não! Porque se cortar a árvore, ela cai junto!…

A águia jovem sabe que pode voar. Mas prefere a segurança do seu velho galho a arriscar-se. Portanto,  se contenta com pequenos vôos baixos de vez em quanto para pegar alguma presa mais lenta. Faz da árvore seca o seu mundo, do qual deliberadamente se torna cada vez mais  prisioneira. E, no seu julgamento, ela é a única águia realmente sensata da floresta.

Passam-se décadas,  e chega a velhice para aquela águia  sem nunca ter sobrevoado o pico da montanha, nem contemplado  dos céus a grandeza e a beleza da floresta. Recusou-se a  assumir aquilo para o qual nascera: ser ousada, exímia caçadora e livre. A árvore seca e a encosta da montanha foram o seu único mundo. Foi esse o universo no qual ela escolheu viver.

A lição desta história é que Deus nos criou para sermos livres, conquistarmos o novo, o desconhecido. No entanto, muitas vezes, o medo nos imobiliza na vida. Nos acomodamos naquele território que conhecemos bem. Evitamos correr riscos, e assim deixamos de descobrir e explorar novas oportunidades.

Pior do que não  mudar de uma situação para outra incomparavelmente melhor é não ter a vontade de fazê-lo. Agindo assim, condenamos a nós próprios à mediocridade. Nesse sentido, ser medíocre é nos conformarmos com o mínimo quando o máximo está ao nosso alcance.

Tanto a mediocridade quanto o sucesso são, em grande parte, uma escolha interior. E essa escolha se externaliza naquilo que decidimos ser e fazer.

Esta história também  ilustra o que acontece entre nós e  o Espírito de Deus. Ele vem e nos provoca com insistência na tentativa de nos fazer abrir mão das coisas velhas, como por exemplo, nossos velhos pecados, e viver em liberdade interior, em Cristo.  No entanto, resistimos. Permanecemos agarrados às coisas velhas que amarguram  a nossa alma e destroem a nossa felicidade. Pensamos que é mais seguro continuar vivendo da maneira à qual já estamos acostumados, mesmo que nossa vida seja um caos.

Há figuras muito interessantes nesta história. Por exemplo, árvore seca fala de vida seca, sem amor, sem alegria verdadeira.  Mas nos apegamos a esse tipo de vida como algo muito precioso. E não importa quantas vezes Deus insista em nos levar a uma nova vida em Cristo  persistimos em ficar na velha.  Nesse processo, ficamos feridos e machucados. E também ferimos quem está ao nosso redor.

Sabemos que é mais fácil “curtir” o nosso ódio a experimentar o amor. Guardar a mágoa a perdoar e liberar o ofensor. Manter o  nosso pecado a deixá-lo. Assim,  preferirmos  acariciar nossa amargura por coisas que nos aconteceram e contra pessoas que nos feriram ou foram injustas conosco.  E  isso se torna o nosso vício e não queremos largá-lo. E assim nos conformamos com uma vida espiritual lamentavelmente pobre uma vez que ela não exige de nós mudança interior profunda. Mas a vida abundante em Cristo requer isso de nós.

Jesus Cristo veio a este mundo, morreu na cruz por nós e ressuscitou ao terceiro dia para nos dar uma nova vida. Na perspectiva temporal ele a chama de vida abundante. Na espiritual, de vida eterna. Essa vida é gerada por Deus no nosso  interior. Ela é real.  E jorra de dentro para fora como rios de água viva. Jorra em direção a Deus, a nós próprios e às outras pessoas. Além de real, ela é gloriosa, apesar de das nossas imperfeições e de vivermos num mundo envolto em trevas espirituais.

Para termos vida abundante é preciso que o Espírito Santo jorre dentro de nós como rios de água viva. E isso implica perdão aos nossos ofensores, abandonar nossos pecados secretos e desenvolver com Deus um relacionamento de amizade e submissão que nos leve para a vida de oração, meditação e aplicação da Palavra dele no nosso viver diário.

A vida abundante em Cristo neste mundo e a vida eterna em glória é a proposta de Deus para nós. Mas podemos escolher nos apegar com determinação a uma vida sem vida e fazermos dela o nosso universo, mesmo crendo em Deus e sendo bons cristãos. O pior é que esse tipo de vida vicia a nossa mente ao  ponto de pensarmos que não vale a pena abandoná-la pela nova vida em Cristo.

A vida espiritual abundante não é um pacote que cai do céu quando nos convertemos a Cristo. Ela é decorrente do viver relacional contínuo que desenvolvemos com Deus pelo seu Espírito e submissão a ele. Esse estilo de vida nos santifica. E sem  santificação, diz a Bíblia, ninguém verá o Senhor (Hebreus, 12.14).

Deus abençoe você.

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Crédito da imagem: http://www.walldesk.com.br

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ÁGUIA FERIDA de Mariano Barroso Marques é licenciado sob uma Licença Creative Commons Atribuição-Uso não-comercial-Vedada a criação de obras derivadas 3.0 Brasil.
Publicado em  www.marianobmarques.wordpress.com.

8 respostas em “ÁGUIA FERIDA

  1. Obrigado! obrigado mesmo, gostei e estou me emrriquecemdo com suas palavras.

  2. aiii esse vai ser sem duvida meu livro favorito!!!! vamos publicar pai…voando com as aguias…inspirador!

  3. valeu mariano, sempre peço a meu Deus que me dê força pra enfrentar o novo e quebrar alguns paradigmas em minha vida, pois so Cristo nos faz realizar grandes voos como uma audaciosa àguia. um abraço

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