ORAÇÃO PELOS GARIS

Mariano B. Marques

Chove. Faz frio lá fora.

Toca a sirene encerrando as aulas da noite na faculdade. Os alunos congestionam os corredores dirigindo-se para o  hall de saída, naturalmente ávidos por chegar em casa, tomar  um banho quente, trocar de roupa, lanchar e depois se recolher para o belo sono nas suas camas macias.  Em meio à pequena multidão andante, também me dirijo ao portão de saída.

 Vou caminhando pela rua, também movimentada de alunos e carros. Ao dobrar a primeira esquina, percebo o caminhão do lixo vindo devagar na minha direção. Movimentando-se com agilidade dos dois lados da rua, quase correndo, os garis vão catando na calçada os volumes de lixo e lançando-os na traseira do veículo, que logo os tritura e engole. Não falam, nem se ouve voz de comando, mas observam-se harmonia e sincronia nos movimentos precisos. Até parece uma dança ensaiada ao ritmo barulhento do motor.

 Ao passarem por mim caminhão e garis, entra pelas minhas narinas o fedor horrível  que exala da viatura. Honestamente, senti o estômago embrulhar. E acelerei automaticamente o passo procurando afastar-me o mais depressa possível. Andei cerca de cinqüenta metros, dobrei a esquina seguinte e ainda ali captava, impregnado no ar, o odor incômodo e nítido do carro do lixo.  Pensei nos garis, que vão se distanciando cada vez mais.

 Pensei também nas famílias deles. Enquanto, em casa, suas esposas queridas e filhos preciosos dormem, ali estão eles, a noite toda, correndo atrás daquele caminhão fedorento para prover o sustento daqueles a quem amam e protegem. E parece que, por amor a eles, nem reclamam. Vou andando e refletindo em silêncio:

 –                “ Este é o meu  segundo curso superior, e vivo relativamente bem. Mas…e se eu fosse um gari? Ah… estaria fazendo a mesma coisa.  E muitas vezes no frio e na chuva, como eles.  E quando, pela manhã, os moradores abrissem suas janelas e portas e saíssem pelas ruas limpinhas, nem iriam se lembrar de que eu havia passado por ali e recolhido o lixo de suas casas. E mesmo que eu dissesse orgulhosamente a todos que sou gari, quem me daria valor?!  Penso que vários dos meus amigos de hoje torceriam o nariz para o lado e se afastariam de mim. E não é assim que somos na sociedade capitalista? Não é verdade que valorizamos as pessoas pelo que elas fazem e pelo que elas têm?”

 Prossigo  em direção à minha casa, elevo a Deus o meu pensamento e o meu coração lembrando dos garis correndo atrás do carro do lixo naquela noite fria e úmida.  E oro comovido:

 “Oh Deus, por favor, abençoa os garis e cuida de suas famílias”.

 Abro a porta e entro em casa.  Tomo o meu banho quente, troco de roupa, lancho pãozinho francês com café e leite quentinhos, e me deito na minha cama  aquecido por edredons confortáveis, para o sono restaurador. E enquanto durmo e descanso tranqüilo,  eles correm até não sei  que hora da noite  limpando as ruas por onde eu e muita gente vamos passar amanhã. E nem passará pela nossas cabeças que foram eles que levaram para longe toda a nossa sujeira.

 Se você acha que garis valem menos do que empresários, doutores ou professores, é só imaginar a sua cidade, a sua rua, a sua porta com montanhas de lixo fedido infestado de mosquitos, moscas, baratas, ratos e outros insetos porque  os garis deixaram de trabalhar há trinta e dois dias.  Pense nos bilhões de bactérias infestando todo o ar que você e seus queridos filhos e cônjuge respiram. E nas potenciais epidemias que podem levar muita gente, inclusive você,  para o cemitério. E, quem sabe, você seja  sensível o suficiente para repensar o seu julgamento e valorizar e honrar pessoas tão simples  que fazem um trabalho  precioso e indispensável para todo nós.

 Esse fato aconteceu comigo em maio de 2006. E sempre que essa cena me vem à memória, sinto o impulso de repetir a mesma oração Àquele que se importa com todos e a todos valoriza como iguais:

 “Oh Deus, por favor, abençoa os garis e cuida de suas famílias. Amém”.

Crédito da imagem: http://www.acessa.com

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ORAÇÃO PELOS GARIS de Mariano Barroso Marques é licenciado sob uma Licença Creative Commons Atribuição-Uso não-comercial-Vedada a criação de obras derivadas 3.0 Brasil.
Publicado em  www.marianobmarques.wordpress.com.

16 respostas em “ORAÇÃO PELOS GARIS

  1. Sei que todas as vezes que ver um gari lembrarei desse texto maravilhoso! Ótima reflexão.

  2. Muito bom esse texto,realmente o ser humano tem que aprender a valorizar o seu próximo tratando com igualdade

  3. Parabéns meu irmão pela sua observação, que bom que existe o gari. Que o Senhor Deus continue lhe abençõe.

  4. Mariano, para pessoas que possuem sensibilidade e realmente se preocupam com o próximo é muito difícil a gente não se comover com o trabalho deste homens.
    Realmente é uma classe que independente do seu nível acadêmico, deveriam ter um reconhecimento mais carinhoso por parte da população a qual tem a sua sujeira pelo menos física, limpa por estes valorosos.
    Valeu a crônica e bem oportuna.
    Abraço,
    João

  5. Mariano, concordo com vc que todas as profissoes tem seu valor e sua importancia na sociedade, e lembro tambem que o nosso Deus nao faz acepçao de pessoas por isso devemos honrar esses homens responsaveis pela manutençao da higienizaçao de nossa cidade. parabens pelo texto e gostei mesmo. um abraço .

  6. Mariano,
    Essa sua reflexão me faz lembrar das inúmeras famílias que vivem em volta de lixões. Todas as vezes que separo o lixo da minha casa, lembro-me deles. acho que se não temos “consciência ecológica” poderiamos fazer isto pelo menos pela “consciência cristã”. Pois ao separarmos o lixo reciclável , estaremos evitando que muita gente tenha que se embrenhar no meio do lixo para selecionar algo que possa ser vendido e ajudar em seu sustento. Quanto aos garis, na maioria das vezes só nos lembramos deles quando cruzam os braços, por motivo de greve por exemplo, assim que sujeira se acumula sentimos falta de tão importante figura.
    Muito importante, valorizarmos e oramos por essas pessoas!!
    gde abraço,
    Cecília Regina Veríssimo
    cecil2708@hotmai.com

  7. Parabéns tio!!vc é um ótimo escritor!!
    É muito bom o que vc escreve!!
    Abraços pra todos aí!

  8. Belo texto!
    Indico o livro “Homens Invisíveis”, o qual já li.
    Relata a tese de um mestrando em psicologia, que se vestiu de gari na USP.
    Ao passar pela faculdade ninguém o reconheceu.
    Imaginar que o Bóris Casoy ofendeu, ao vivo, esses guerreiros.
    Trabalho essencial. Que Deus abençoe os garis.

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