A PANIFICADORA E A IGREJA

Mariano B. Marques

Oi, eu sou a Panificadora Estrela.

Estou aqui no bairro há cerca de três anos, e todo mundo me conhece. Não só a vizinhança, mas até gente de longe.

Quando alguém de fora pergunta onde fica a Panificadora Estrela, todo mundo sabe, inclusive as crianças.  Elas estão sempre aqui comprando balas, picolés e outras delícias.

Velhinhos também vêm aqui comprar pão e leite. E adolescentes, esses então…chegam aos magotes depois da aula. Tem uma escola perto, e gostam de vir lanchar e bater papo.

Aqui vem todo tipo de gente. Todos são bem-vindos e recebidos com gentileza.

Mas, agora, enquanto você está lendo este texto, estou triste. Muito mesmo. É que  fui vendida há três meses. No meu lugar, vão instalar uma loja de material de construção. Amanhã, todo mundo vai chegar aqui e vou estar de portas fechadas, com o aviso: “DESCULPEM, ESTAMOS PASSANDO O PONTO”.

 A grita vai ser geral. Muita gente vai sair de suas casas e vir até aqui para se certificar de que é verdade. Outros vão organizar passeata pelas ruas do bairro exibindo cartazes: “QUEREMOS A ESTRELA DE VOLTA!”. Vão fazer o maior rebu, mas não vai adiantar. Puxa, por que não compraram o prédio da igreja e me deixaram em paz?

Igreja?… Quem falou meu nome?

Bem, eu sou a igreja evangélica do mesmo bairro da  Panificadora Estrela. Estou aqui há trinta e dois anos. Meus vizinhos raramente vêm aqui.  Quase não tenho contato com eles.

Tenho centenas e  centenas de membros. Nos reunimos três vezes por semana. As pessoas sentam em bancos, todas voltadas para a frente, sempre olhando as outras pela nunca.

A cada culto, os membros têm a oportunidade de conhecer uma nuca diferente. Ou, rever uma já conhecida. Minha política de relacionamentos é que cada membro conheça a nuca do seu irmão, ou de sua irmã.  Assim, basta olhar de longe e será capaz de dizer: aquela é a nuca número 5, aquela a 11, aquela a 38, e aquela é…ah, sim, a 119.

Como só poucas pessoas sabem os nomes umas das outras, preferem se chamar apenas de “irmão”, para os homens, e “irmã” para as mulheres. Aqui, Irmão e Irmã são nomes próprios.

Quando querem demonstrar mais afetividade, se chamam de “Amado Irmão” ou “Amada Irmã’. Até o microfone às vezes é chamado de “amado irmão”. Entre os homens, tem aqueles que acham mais espiritual e bíblico se tratarem de “varão”. Até adolescente por aqui é chamado de “varão”. Você pode achar isso ridículo, mas é assim que somos.

Um dia desses, no estacionamento, chegou um entregador de pizza numa moto.  Um irmão fervoroso, querendo ajudá-lo, gritou de longe:

– Quer falar com quem, varão?!…

Por ser magro e alto, o cara, irritado, pensando estar sendo insultado,  gritou de volta,  na lata:

– Varão é tua mãe!…

É que ele não sabe que, por aqui, se fala o evangeliqüês, o dialeto do nosso gueto.

As minhas programações são uma bênção! Você precisa ver!

Tenho cultos cheios de louvor, pregações ungidas, cantores convidados e tudo o mais. Realizo congressos de jovens, de senhoras, e até reuniões de oração. Todos os anos, faço uma festa de aniversário do pastor e outra do meu. Também promovo festas  de Natal, Dias das Mães e várias outras. O templo fica abarrotado de crentes. Não convido o pessoal da redondeza.  Eles não vêm mesmo!….

Minha pregação é ungida e tocante. Mas só para crentes.  O Cristo que proclamo resolve todos os problemas das pessoas, menos o destino eterno de suas almas.

Eu falei “almas”? Ah, sim, falei. É que salvação de pecadores é uma coisa com a qual a gente não se preocupa mais.  Isso  é coisa do passado. E do passado muito passado.

Quero pessoas lotando meu templo, mas somente em busca do que Deus pode dar para elas, e não dele próprio.

Bem, tenho uma notícia: há alguns meses, uma rede de concessionárias de automóveis comprou a propriedade onde estou localizada. Amanhã, vou me mudar para outro bairro. E quando o pessoal da vizinhança passar por aqui vai ver uma placa da concessionária, a nova dona da área.   Mas não vai fazer diferença para elas. Só vão se lembrar de que aqui tinha uma igreja quando a construtora começar a demolir o templo para construir as instalações da empresa.

Mas  tem uma pessoa que vai sentir muito minha falta: aquele mendigo velho e barbudo que há mais ou menos dois anos vem aqui para usar o banheiro externo. Desculpe eu o chamar  de “mendigo”. É que não sei o nome dele.

Estou certa de que   ninguém vai para a rua exigir a minha volta. Pelo contrário,  estarão livres de serem incomodados com o barulho das minhas vigílias de oração madrugada a dentro com amplificadores de som para surdos profundos. Ou, como se eu quisesse evitar que Deus pegue no sono e não me escute.

Quanto à Panificadora Estrela, sinto inveja dela. Pensando bem, nesses trinta e dois anos,   talvez eu deveria ter sido uma panificadora. Teria sido mais útil ao pessoal da vizinhança. E, com certeza, teria muitos amigos.

Moral da história: Mais vale uma panificadora que sabe servir sua comunidade e se relacionar bem com ela do que uma igreja que só olha para o seu umbigo.

Deus abençoe você.

Crédito da imagem: http://www.farol-da-torre.blogspot.com

Licença Creative Commons
A PANIFICADORA E A IGREJA de Mariano Barroso Marques é licenciado sob uma Licença Creative Commons Atribuição-Uso não-comercial-Vedada a criação de obras derivadas 3.0 Brasil.
Publicado em  www.marianobmarques.wordpress.com.

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24 respostas em “A PANIFICADORA E A IGREJA

  1. Graça e Paz , Pr Mariano!
    Gostei da matéria “A panificadora e a igreja”, creio que esta é a sua situação de muitas igrejas por ai e um alerta para nós Pastores, procurarmos mudar o rítimo da igreja a qual estamos pastoreando.

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  2. …….Creio que este comentário é o ALERTA de Deus aos seus filhos,ditos evangélicos…………

    Deus fala com voz de trovão revelendo seu verdadeiro interesse de amar a humanidade,o interesse de que sejamos “BOCA DE DEUS”.

    E devemos falar a verdade de Deus ,não apenas em TEMPLOS; 4 paredes com conforto de ar condicionado e som de maior qualidade,e sim; sermos BOCA de DEUS nas ruas ,presídios ,hospitais,favelas.
    A verdade de DEUS é destinada a pobres e ricos,leigos e cientistas.
    Basta; aos crentes interesseiros que buscam bençãos matérias,é hora de vivermos o objetivo de Deus,AMOR E SALVAÇÃO..
    Louvo á Deus por sua vida Iro.Mariano;homem segundo o coração de Deus,sei que o Senhor é a voz de Deus que se uni a outros escolhidos e homens de Deus.
    GERSONITA PRACIANO
    (Fortaleza-CE)

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  3. Mariano, esta é uma reflexão que os verdadeiros “armazéns da fé” que se tornaram nossas igrejas deveriam fazer. Qual é o meu papel na comunidade onde estou inserida? O problema é que não queremos nos incomodar com ninguém, e nem incomodar a “seu” ninguém, se ninguém mexer conosco então está tudo certo, não faz a menor diferença se a comunidade nos conhece ou não, se eles nos reconhecem ou não, o que importa é que eu tenho alimento para mim e em alguns casos para os meus também.
    Que Deus chacoalhe esta Igreja inerte de alguma forma para que retornemos ao Caminho.

    Um abração meu amigo!!!

    Pr. Marcos Cassiano.

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  4. Mariano, é exatamente o que venho observando na igreja que frequentamos, a morte de uma igreja, que certamente não fará falta ao bairro.
    A cada culto que vamos, sentimos cada vez, mais vazia de pessoas e da essência principal, que é uma pregação que mexa com a gente, que nos levante e que nos aproxime realmente de Deus.
    Tenho dó de deixá-la, pois me sentiria um covarde, sendo mais um a abandonar o barco, pois até o pastor e a família já cairam fora.(estamos sem pastor)
    Peço a Deus, para abençoar esta igreja que já tem quase 40 anos, e que não permita que a mesma sucumba à frieza espiritual de todos nós, seus frequentadores.
    Abraço,
    João

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    • O que vc escreve é muito sério e também muito verdadeiro, João. Uma igreja espiritualmente viva, cheia do Espírito Santo e dos dons espirituais jamais se acomoda entre suas paredes.Ela se projeta para fora de múltiplas maneiras. Uma igreja que só olha para dentro de si mesma não pode ser chamada de avivada. Está mais para clube do que para igreja de Cristo. Grande abraço.

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    • Sim, Eleusa.
      É nosso papel orar e jejuar pela igreja do Senhor, em todos os lugares, para que ela realmente brilhe para Cristo e por ele. Para que seja incendiada pelo Espírito Santo.
      Quando a igreja está inflamada pelo Espírito Santo, ninguém a segura, e ela atrai dezenas, centenas, milhares de pessoas para esse mover do Espírito. Essa responsabilidade é minha, sua, de todos nós que servimos e amamos o Senhor Jesus Cristo.

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