CICATRIZES DA ALMA

Mariano  B.Marques

O choro agonizante de dor cortou a mata escura e densa. E era de bebê.

Estávamos no meio do caminho, já de volta para casa. A luz escassa da lamparina alumiava nossos pés na vereda estreita.

Voltávamos da casa de minha irmã mais velha, Maria, onde fomos buscar alguma coisa rapidinho,  não me lembro o quê. Eu e meus irmãos, todos  ainda pequenos, e mamãe.

Andamos, corremos o mais rápido possível até o terreiro da nossa casa. Abrimos rapidamente a porta de palha de babaçu – na verdade uma esteira – e entramos à toda pressa, mamãe na frente. E presenciamos a cena horrorosa. Você detestaria ver.

Foi chocante. Enquanto nosso irmãozinho de seis meses agonizava de dor e chorando em desespero, o bicho subia pela rede acima em direção aos punhos, tranquilamente. Havia deixado para trás o seu veneno mortal.

Um pensamento me ocorreu, que eu não queria admitir: havíamos chegado tarde demais. Manchas escuras em todo o corpo do bebê. Mas a língua toda rocha era, para mim… o sinal da morte.

E o choro a todo pulmão continuou noite adentro. E nos cortava na alma. Nosso pai estava viajando.

Minha mãe…ah, minha mãe…como me doeu  fundo  vê-la desesperada, com o Anísio no peito, tentando fazê-lo mamar, mas ele não conseguia, tamanha era a dor.

Ela fez rapidamente um chá, mas também não adiantou.

Foi a primeira vez que experimentei o sentimento profundo de impotência. Então, eu só olhava, solidário, enquanto minha mente divagava numa tentativa inútil de socorro. O que uma criança de oito anos poderia fazer naquele lugar, no meio da mata, longe de tudo, e à noite?

Por volta das sete horas da noite do dia seguinte,  o irmãozinho que eu tanto amava começou a expelir pela boca e nariz golfadas abundantes de um líquido escuro, quase preto. Colocaram uma vela acesa na  mãozinha dele – éramos católicos.  E foi assim que o vi morrer. Foi assim que o perdi.

Há apenas três anos, meio século depois do fato, numa palestra para jovens sobre cura da alma, me emocionei ao compartilhar este capítulo  de minha vida. Especialmente pela memória viva daquela cena de minha mãe desesperada  com o filho agonizando nos braços e sem poder fazer nada.

Meus ouvintes também se emocionaram. E não apenas pelo meu testemunho, mas porque entraram em contato com as cicatrizes da sua própria alma.

Na vida real, geralmente não se consegue entender o porquê de coisas desse tipo. E nem sempre são para serem entendidas, mas simplesmente vividas. É a realidade humana, e não podemos mudá-la.

E só uma coisa nos conforta: a firme consciência de que Deus está no controle de todas as coisas, até mesmo daquelas dolorosas e para as quais não encontramos respostas.

Deus abençoe você.

Fonte da imagem: http://www.olhares.uol.com.br

Licença Creative Commons
CICATRIZES DA ALMA de Mariano Barroso Marques é licenciado sob uma Licença Creative Commons Atribuição-Uso não-comercial-Vedada a criação de obras derivadas 3.0 Brasil.
Publicado em  www.marianobmarques.wordpress.com.

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14 respostas em “CICATRIZES DA ALMA

  1. QUE FELICIDAAAAAAAAAAAAAAAAADE! Nossa irmão Mariano, pela primeira vez visitei seu blog e estou muito feliz! PARABÉNS POR ESTE TRABALHO!
    Desejo e acredito que quando partirmos para a eternidade com Cristo, não iremos vivenciar mais ficar ansiosos em saber os por ques da vida terrena mas lá viveremos, simplismente viveremos para Sempre o verdadeiro amor com intensidade! O senhor é nota Mil!
    Quando comecei a ler os seus artigos pensei muito no Mike Murdock escritor de “O Desígnio” (muito bom)! Felicidades pro sr e para os seus!

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    • Entendo perfeitamente, Ebenézer. Eu também passei a vida toda dos meus pais aprendendo fatos da vida deles que eu nem imaginava terem acontecido. Por exemplo, só aos 92 anos de idade (há um ano atrás) minha mãe me contou que havia escorregado e caído num poço profundo cavado pela natureza na pedra, no Piauí, quando ainda era nova.
      Estava lavando roupa. As paredes eram lisas, e não tinha como ela subir. Era longe de casa e não havia por quem chamar. Então clamou a Deus por socorro e conseguiu sair.Como vc sabe, os dois já morreram, e tenho certeza de que ambos se foram antes que eu soubesse tudo da história
      da vida deles.
      Gostei do seu comentário. Grande abraço. Você é muito especial para mim.

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  2. “Na vida real, geralmente não se consegue entender o porquê de coisas desse tipo. E nem sempre são para serem entendidas, mas simplesmente vividas. (…)”

    Realmente pastor Mariano, algo difícil de se explicar é a permissão do Senhor no sofrimento dos pequeninos. Talvez lá na Glória compreenderemos melhor não apenas essa, mas outras tantas questões que por vezes vivenciamos, sofremos e não entendemos.

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