A RÃ E O GIGANTE

Mariano Marques

Meu sobrinho, jovem atlético de  um metro e oitenta de altura, estava lavando o banheiro da nossa casa e, eu, assistindo ao jornal na televisão, no quarto ao lado. De repente, ele grita lá do banheiro:

-Tio, vem cá! Vem ver uma coisa!

Corro para lá, e o que vemos? uma pequena rã assustada e confusa, saltando sem direção certa, procurando fugir pelo chão molhado. Encolhe-se o mais que pode num dos cantos, colada à parede, como que implorando misericórdia.  Mais que depressa, o meu sobrinho desce o rodo sobre o minúsculo animal, com a intenção nítida de matá-lo. Para sorte dela, ele  errou o primeiro golpe.

–         Espera aí, você vai mata-la? – pergunto rápido, quando já se preparava para o segundo golpe, que poderia ser certeiro e fatal.

–          Sim, vou! –  responde.

–         Espera aí, a bichinha também quer viver! Coloque-se no lugar dela! Imagine que você é uma rã diante de um gigante. Para ela, você é um gigante!

Pego um pedaço de papel higiênico, e, num movimento mais rápido do que a ágil e pequenina rã, comprimo-a contra a parede e a levo para o lado de fora da casa, onde a solto, viva,  entre as plantas da minha sogra.

O pequenino animal  percebe que está solto e sai pulando aliviada.  E eu, volto para dentro de casa sentindo-me herói por haver salvo uma vida preciosa.  Até aí, nada de mais, trata-se de apenas um acontecimento fora da rotina na cidade grande.

E me lembrei de quando era menino e morava no sertão nordestino brasileiro. Quando via um passarinho, o meu primeiro impulso era matá-lo usando meu bodoque  ou minha baladeira. E geralmente, a motivação maior era testar minha pontaria.

Uma hora depois, vou para o meu quarto e fico repassando a cena. Na minha cabeça, uma pergunta intrigante: “Por que o nosso primeiro impulso diante do mais fraco é o de eliminá-lo ao invés de protegê-lo?” “ Por que a vida do mais fraco nada vale para nós?”

Por certo, invertendo-se as posições e colocando-nos no lugar daquela rãzinha, a vida é igualmente importante, o bem supremo.  Não importa a qual espécie pertencemos, nem o nosso tamanho, o dinheiro, o poder , a influência ou o prestígio que temos, o valor da vida é igualmente precioso para todo e qualquer vivente.

Portanto, protejamos a vida e o direito de quem quer que seja, especialmente daqueles que são absolutamente indefeso diante da  nossa força ou do nosso poder.

Crédito da imagem:  santuario-ra-bugio.htmlplanet.com

 

2 respostas em “A RÃ E O GIGANTE

  1. Pr. Mariano eu era o campeão da baladeira lá em Itapaci-GO. Gostava mesmo era de caçar inhambú e comê-los fritos aos domingos a noite após as missas.

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