O chamado, o preparo, a missão

Mariano B. Marques

         Deus chama pessoas para missões específicas. A Bíblia mostra que todos os homens e mulheres que realizaram algo notável para Deus receberam um chamado Dele para isso. Variam as circunstâncias em que esse chamado ocorre e a maneira de Deus fazê-lo.

A chamada é um ato soberano de Deus, mas o preparo é sempre uma parceria entre Deus e o homem, e pode ser um processo de  muitos anos. Às vezes Deus dá início a esse processo sem que o homem ou a mulher tenha consciência de que Ele está conduzindo a sua vida para atender ao seu chamado na época oportuna.

Noé viveu em uma época em que não chovia sobre a terra quando Deus o chamou para construir uma arca para salvar a sua família e um casal de cada espécie de animais. O seu propósito era recomeçar a vida na terra após o dilúvio.

Abrão vivia no meio de um povo idólatra quando Deus o chamou para o propósito especial de fazer dele uma grande nação.

Gideão era um jovem descendente de uma família modesta e estava malhando o trigo no lagar  quando Deus o chamou para livrar Israel das mãos dos midianitas.       Sendo o de porte físico mais singelo e pastor das ovelhas do seu pai, Davi foi escolhido para ser rei de Israel.

Moisés foi criado pela filha do faraó, teve a melhor educação possível no seu país, mas, motivado pela visão de ver o seu povo uma nação livre e independente, mata um egípcio e foge para o deserto, onde passa a trabalhar como pastor das ovelhas do seu sogro. Aos oitenta anos de idade, quando parecia que o seu sonho jamais se transformaria em  realidade,  Deus o chama, na sarça ardente, para libertar o seu povo Israel do Egito. Moisés não sabia, mas, desde criança, Deus o estava preparando para essa missão desafiadora. Na sarça, Deus e Moisés se encontram, e os seus caminhos se tornam um.

Habitando no meio de um povo de lábios impuros, Isaías recebe o chamado de Deus para ser seu profeta.

Sendo escravo do rei Artaxerxes no exílio babilônico, Neemias recebe o chamado para ir a Jerusalém e reconstruir os muros e as portas da cidade destruídos  pelos seus conquistadores.

Estando à beira do mar da Galiléia fazendo o seu trabalho de pescadores, Pedro e André são chamados pelo Mestre para se tornarem pescadores de homens.

Saulo de Tarso era muito culto, líder entre líderes e perseguidor da igreja, e o Senhor Jesus se manifesta a ele no caminho de Damasco,  e o comissiona para pregar o seu evangelho aos gentios. Anos depois, já sofrendo perseguições, prisões e humilhações por causa do evangelho de Cristo, Paulo estava tão possuído da consciência e da responsabilidade do seu chamado que exteriorizou isso em palavras escritas com indiscutível vigor:

“ Porque seu devedor tanto a gregos como a bárbaros, tanto a sábios como a ignorantes” Rm 1.14.  E prossegue: “ Se anuncio o evangelho, não tenho de que me gloriar, pois sobre mim pesa essa obrigação; porque ai de mim se não pregar o evangelho” I Co. 9.16.

Cada chamado de Deus é um evento único e especial. No chamado de Neemias, por exemplo, o livro que leva o seu nome não registra nenhuma experiência extraordinária como a da sarça ardente,  nem mesmo que Deus lhe tenha falado em voz audível. Deus lhe falou nas suas emoções. Neemias foi tomado de um grande quebrantamento e profunda tristeza perante Deus pela miséria do povo e pela situação humilhante da cidade de Jerusalém, cujos muros e portas destruídos a expunha a zombarias e vexames dos povos vizinhos inimigos. Ao tomar conhecimento dessa situação deplorável, Neemias passou vários dias em lamentação, oração e jejum perante Deus. E o Senhor colocou no seu coração o chamado para ir à cidade dos seus pais e reedificar os muros e as portas.

No caso de Isaías, ele teve uma visão da glória e da santidade de Deus. Essa visão o encheu da convicção do seu próprio pecado e do pecado do seu povo. Pede, então, que Deus o purifique. De fato, quando nos conscientizamos da glória e da santidade de Deus também nos conscientizamos do nosso pecado e desejamos ser purificados.

No caso de Moisés, a visão da glória de Deus manifestada apenas parcialmente na sarça ardente o encheu de convicção da sua incapacidade humana para realizar um projeto divino. Mas Deus o fez entender que o capacitação viria Dele. Moisés seria apenas o instrumento humano, o seu parceiro no projeto de libertar o povo do cativeiro e conduzi-lo para a Terra Prometida.

No caso de Paulo, o capítulo 9 de Atos dos Apóstolo parece sugerir que o seu chamado foi um evento repentino. Já no caso de Moisés, parece que foi mais um processo que durou anos e culminou com a experiência da sarça ardente. Os discípulos de Jesus receberam um chamado para seguir o Mestre e serem por ele preparados para a missão de liderarem a igreja primitiva e do primeiro movimento de evangelização mundial.

Em todos os chamados registrados na Bíblia, observamos que o chamado de Deus é sempre altamente impactante e associado a uma missão específica. Também aprendemos que ao chamado de Deus sempre corresponde a uma resposta do homem.

O chamado de Deus e o preparo para a missão

O chamado de Deus não dispensa o preparo para a realização da missão. Esse preparo pode ser  iniciado por Deus muito antes do chamado acontecer.

O chamado de Deus tem uma dimensão muito ampla antes, durante o depois de sua ocorrência efetiva. No caso de Moisés, a visão de ver o seu povo livre da escravidão egípcia era tão forte que  anulou as possibilidades reais que a condição de filho da filha de faraó lhe conferia. Antes da sarça, os quarenta anos de vida regalada na corte haviam dado lugar a uma vida extremamente simples e rude no deserto como pastor de ovelhas do seu sogro. Na corte, Moisés havia  recebido  preparo intelectual excelente, que em muito contribuiria para que Deus o usasse como o grande legislador de Israel, mas foi vivendo na solidão, no calor e na poeira do  deserto cuidando de ovelhas que Deus o preparou para ser o grande libertador e pastor do seu povo.

Portanto, embora costumemos ver a experiência da sarça ardente como o momento efetivo do  chamado de Moisés, penso que Deus já vinha trabalhando objetivamente em sua vida ao longo de cerca de oitenta anos. Penso que toda a trajetória da vida de Moisés o conduzia para a sarça ardente, embora, talvez, ele não tivesse consciência disso. É possível que, lá no íntimo, já existia, havia muitos anos, a chama do Espírito de Deus ardendo em seu coração preparando-o para a missão para a qual Deus já o havia escolhido.

A chamada e o preparo de Paulo têm semelhanças com os de Moisés. Antes da experiência com o Senhor no caminho de Damasco, ele já vinha tendo, sem consciência disso, um longo preparo  no judaísmo como fariseu e nos conhecimentos intelectuais vigentes em sua época. Tudo isso serviu de matéria-prima para que o Senhor fizesse dele o grande apóstolo dos gentios e doutrinador da  igreja e o líder e teólogo por excelência  dentre todos os apóstolos. Moisés como legislador e Paulo como teólogo e doutrinador da igreja cristã continuam influenciando milhões de pessoas em todo o mundo.

Há quem pense que a chamada de Deus para uma missão por si só nos qualifica  para realizá-la. Há também que os que são chamados não precisam de preparo especial. E, no ímpeto da chamada, podemos ignorar o preparo e partir imediatamente para a realização da missão. Quem faz isso pode ser comparado a  um rapaz de 18 anos, forte, inteligente e vigoroso que se alista para o exército. E pelo fato de vestir uma farda de combate e portar na mão uma metralhadora pensa que já está pronto para ir para a guerra. Portanto, ser chamado não significa estar qualificado para realizar a missão para qual Deus fez o chamado. Quem é chamado por Deus para uma missão específica deve preparar-se o melhor possível, embora, em última análise, é Deus quem vai realizar por nosso intermédio. Mas isso implica em que o instrumento que Deus vai usar esteja o mais afinado possível com o propósito para o qual Deus o quer usar. Imagine um exímio musicista fazendo um show para um grande auditório usando um instrumento desafinado. Deve ser terrível – para o musicista e para o auditório.

Paulo, embora sendo um intelectual e proeminente no seu contexto social e religioso, quando recebeu o chamado do Senhor passou muito tempo em oração e jejuns buscando-O e se preparando especifica e conscientemente para a realização da sua missão.  É possível que Paulo tenha passado cerca de doze anos de  treinamento e esforço evangelístico antes de se lançar à sua vibrante e frutífera carreira missionária.

Os discípulos de Jesus, Timóteo, Tito e outros, embora chamados, tiveram que se qualificar primeiro antes do “ide”. O próprio Jesus Cristo se qualificou antes de iniciar a realizar a sua missão. Quando João Batista o apresentou como o Cordeiro de Deus que tira os pecados do mundo, o Senhor já vinha num processo de preparação de cerca de trinta anos.

Concluindo, a cada líder chamado Deus dá uma missão. E para cada missão precisa haver o preparo adequado para realizá-la com sucesso. Homens e mulheres chamados por Deus que negligenciam o preparo podem fracassar fragorosamente no realizar a sua missão.

É preciso entendermos  que apenas a chamada não faz o missionário; é necessário também o preparo adequado, seja qual for a missão para a qual Deus nos  honrou com a sua chamada. E esse preparo se concretiza com a parceria afinada entre o homem e Deus, e vice-versa, na qual cada um dá o melhor de si.

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O Chamado, o Preparo, a Missão de Mariano Barroso Marques é licenciado sob uma Licença Creative Commons Atribuição-Uso não-comercial-Vedada a criação de obras derivadas 3.0 Brasil.
Publicado em  www.marianobmarques.wordpress.com.

4 respostas em “O chamado, o preparo, a missão

  1. Bom Amigo Mariano

    Parabens por este artigo, claro, simples e objetivo, voce é dez!!!!

  2. Achei esse artigo maravilhoso. Falou diretamente comigo, principalmente no que se refere à preparação. Como foi muito bem colocado, a consciencia do chamado para uma missão em si mesmo não capacita ninguém. De fato o instrumento que Deus vai usar precida está bem afinado com o Seu propósito e vice-versa, caso contrário………!!!

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